domingo, 12 de julho de 2009

Adeus

Um poema que sempre me angustiou - o único que sei de cor...

"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,


Um dos meus lugares preferidos em Barcelona,
para quem gosta de janelas...


gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.

Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus."

Um poema de Eugénio de Andrade

4 comentários:

elvira carvalho disse...

Já vim ler o poema ontem. Mas não disse nada porque a mim também me angustia este poema.
Um abraço e uma boa semana

fidalgo disse...

ladra, este poema é "meu".

Primogénita disse...

Meu caro tio S.,

Embora, na realidade, este poema seja "meu" desde os meus 13 anos - altura em que comecei a pescar namorados para logo depois os perder -, a verdade é que a poesia não tem dono. É uma prostituta... ou antes, uma mulher independente e dificil. Mas se fizeres questão, empresto-ta uns minutos;)

fidalgo disse...

obrigado, aceito